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Entrevistas

César Mourão

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“Não sou cómico, não sou humorista, sou um ator”

Toda a gente fala de César: ele é “a César o que é de César”, “à mulher de César não basta” não sei o quê, mas ninguém fala do Mourão. Quem é o Mourão?
C.M. Penso que o Mourão é a parte mais importante, porque é o apelido. Mas acho que é a ampliação do César e a sua parte mais verdadeira. Mas não deixo de achar graça às brincadeiras que fazem com o nome e aproveito-me delas, revejo-me nelas.

Como prefere ser visto? Como ator, como cómico, como entertainer, como figura da televisão...
C.M. O que eu sou, única e exclusivamente, é ator. É essa a minha profissão. Não sou cómico, não sou humorista, não sou uma personagem televisiva: sou um ator, que é tudo isso e muitas mais coisas. E foi para isso que me formei: não comecei a minha vida a dizer umas piadas a que alguém achou graça e me contratou. E eu tenho formação como ator.

Portanto não era o miúdo que lá em casa contava as graçolas?
C.M. Até era… Mas como também sou muito tímido, isso só acontecia quando me saía alguma coisa de forma espontânea. Se me pedissem para fazer nunca resultava e eu próprio nunca faria isso. Ainda hoje há jantares em que não abro a boca e outros em que digo umas coisas: não lhes chamo “graçolas” porque o que eu digo são coisas naturais, que me saem, e a que as pessoas acham graça.

Disse uma vez que não escolheu a profissão, que foi ela que o chamou.
C.M. Exatamente, foi isso mesmo. Pode parecer uma frase muito usada, mas foi isso que me aconteceu. Toda a vida estudei desporto e fazia teatro amador. E toda a gente me dizia para continuar, que era uma pena se não seguisse. E eu, realmente, sentia-me bem no palco e as coisas corriam- -me bem e senti que havia ali uma espécie de chamamento por parte da profissão.

Mas há atores que têm um lado histriónico natural, não acha?
C.M. Por acaso até não. A maior parte dos atores que conheço (incluindo eu) são histriónicos, mas ao contrário: calados ou meio calados… Eu, num almoço, jantar ou numa festa fico tímido, sem querer dar nas vistas. Eu nem sei anedotas!

Mas concorda que a imagem que passa cá para fora é a de que o César tem graça?
C.M. Isso acontece às vezes, mas acontece sobretudo quando estou junto às pessoas que me são próximas.

O César faz parte dos Commedia a la Carte, que é um projeto que existe há 17 anos. Qual o segredo para essa longevidade?
C.M. Que vai recomeçar no mês de setembro… Quanto ao segredo, como lhe chama, acho que é o sermos genuínos e verdadeiros. O que fazemos em palco é uma improvisação — e essa improvisação é séria, é verdadeira e o público faz parte do espetáculo. Muitas vezes enganamo-nos em palco e o público sente que há ali muita transparência e, por isso, adere sempre muito bem. Mas o atrativo do espetáculo está em ser feito de improviso, que é uma coisa de que as pessoas gostam, porque é o mesmo que ver um trapezista a trabalhar sem rede e quando percebem que não há rede, o público tende a torcer pelo trapezista e a estar com ele naquele salto. Connosco é igual: fazemos teatro sem rede.

E já correu mal?
C.M. Provavelmente já, mas a reação do público ajuda a transformar o erro numa piada. É como quem chega a casa num domingo à noite, tem sobras no frigorífico e com elas faz uma belíssima refeição.

Tanto os Commedia a la Carte como o Rebenta a Bolha (que faz na rádio e de que vai sair um novo baralho e um jogo no Natal) têm em comum o improviso: nunca há o receio de bloquear?
C.M. O medo existiu nos primeiros anos de trabalho. Agora já não, mas é evidente que existe o risco enorme de bloquear. Mas nós (não me quero esquecer do Ricardo e do Carlos) aprendemos a usar esse medo como uma arma. Não existe a música sem silêncio: se em palco eu tiver uma paragem, tenho de usar esse silêncio para fazer a minha “música”.
 

Recordamos figuras suas, como o Carcaça ou o Ken…
C.M. O Carcaça nasceu por acaso, durante um almoço no estúdio onde estavam dois realizadores. E eu disse-lhes “Amanhã vou fazer assim”. Só que tinha a boca cheia de pão e eles não percebiam o que eu dizia.
 

A D. Alzira, no Fátima, também foi muito marcante.
C.M. Foi, de facto, e um bocadinho contra minha vontade. Porque a D. Alzira, que era empregada da limpeza, era o tipo de coisa que se fazia nos programas da manhã. E eu queria uma coisa mais disruptiva, como o Carcaça ou o Ken. Por isso quando insistiram para que fizesse a empregada da limpeza, aceitei embora decidisse fazer tudo ao contrário: essas personagens tratam bem as apresentadoras, adoram-nas, e eu tratava-a mal, odiava-a. Mas não foi uma personagem de que tenha gostado.
 

A minissérie que fez para a SIC, Sal, tinha situações muito engraçadas.
C.M. Também achei. Mas parece-me que com o Sal morreu um pouco o humor na televisão: hoje em dia, o humor é posto meio camuflado nas telenovelas. Há núcleos cómicos nas telenovelas. Espero que isso seja passageiro e que a televisão volte a apostar no humor.


A avaliar pelo número de espetadores, as novas versões dos filmes da década de 40, O Pátio das Cantigas e A Canção de Lisboa foram muito bem recebidas.
C.M. Muito bem, qualquer delas. As pessoas conhecem as histórias e, embora estas tenham sido transformadas e passadas para a atualidade, julgo que houve uma curiosidade em ver como tinham ficado aqueles clássicos que tinham visto imensas vezes na televisão.
 

Nunca recebeu propostas para fazer novelas?
C.M. Já recebi vários convites nesse sentido.

E acha que o convite era para fazer parte do “núcleo de humor” de que falava há pouco?
C.M. Era… Os convites eram para eu fazer parte de um desses núcleos de humor, e daí ter recusado. Não tenho nada contra as novelas quando são bem feitas, mas é um género que não está nos meus horizontes. Recusei mais por ser para o núcleo cómico; se tivesse sido outro tipo de personagem… Não aconteceu.

Estudou no Chapitô: o que aprendeu lá?
C.M. Tudo. No Chapitô aprendi tudo, tudo, tudo! Toda a versatilidade que tenho hoje devo-a ao Chapitô e aos professores com que me cruzei. Cada vez acho mais que um ator deve ser versátil.

E também aprendeu a tocar.
C.M. Na verdade, não. No Chapitô tive foi aulas de música; em relação aos vários instrumentos que toco sempre fui autodidata. E todos os dias toco um pouco, porque tocar um instrumento é uma questão de dedicação. O Chapitô não me deu essa ferramenta: não me deu o peixe, mas ensinou-me a pescar.

Também estudou na UniverCidade do Rio de Janeiro: aí, o que aprendeu?
C.M. Aí a conversa já é outra. Fui para o Rio de Janeiro quando acabei o Chapitô e quando lá chego verifico que o Chapitô é uma grande escola: eu ia com uma bagagem muito maior do que os meus colegas no Brasil. Muitos deles iam ter as primeiras aulas de Teatro e eu já tinha três anos de formação. Mas aprende-se sempre: eu aprendi mais Cinema, que era uma coisa que o Chapitô não tinha.

Esteve no programa do Jô Soares, participou em sketches da Porta dos Fundos. São meios muito diferentes, o Brasil e Portugal?
C.M. No Brasil sinto-me em casa, fiz imensos amigos e identifico-me muito com o humor que lá fazem. Fazer um sketch com a Porta dos Fundos, que é uma coisa que tem milhões de visualizações, é uma coisa que era impensável aqui. No entanto, acho que aqui temos um maior rigor, lá eles são mais soltos. Há diferenças, mas todas fáceis de coordenar.

Tem cuidados consigo, com o que come?
C.M. Tenho cuidado, mas é por fases. De uma forma geral tenho alguns cuidados.

O César, que tem uma filha, sabe cozinhar?
C.M. Sei, sei. Não é um talento, mas não faço só bife com batatas fritas… E essa preocupação vem muito por causa da minha filha.

E era homem para nos dar uma receita?
C.M. Não sou! Mas explico porque é que não sou: porque eu cozinho como quando estou em palco…

De improviso?
C.M. É, é mais ou menos de improviso. Porque odeio pensar no que vou fazer e quantos ovos são e essas coisas. Quando entro no supermercado é que me vou lembrando: “isto dava com aquilo e posso acrescentar isto”. As minhas receitas são assim, porque faço questão de não decorar absolutamente nada.

Respostas Rápidas

Um filme
A Vida É Bela (Roberto Benigni).


Uma peça de teatro
Hamlet, de Shakespeare.


Com quem gostava de estar no palco
Com uma pessoa que disse há pouco tempo que não quer mais palcos, nem filmes: Daniel Day-Lewis.


Uma qualidade
A persistência.


Um defeito
A persistência.

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